Liderar com foco num mercado que vive em urgência
- 3 de fev.
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Porque no imobiliário, estar ocupado não é o mesmo que ser eficaz.
“Se tudo é prioridade, então nada é.” A frase de Greg McKeown, no livro Essentialism: The Disciplined Pursuit of Less, resume um dos maiores desafios da liderança contemporânea. No setor imobiliário, esta realidade é ainda mais evidente.
Fevereiro chega com agendas cheias, objetivos definidos e uma quantidade absurda de solicitações diárias. Reuniões sucedem-se, mensagens acumulam-se, decisões são exigidas a todo o momento. O dia termina e a sensação repete-se: muito movimento, pouco avanço estratégico.

A verdade, ainda que desconfortável, é simples. A maioria dos líderes no mercado imobiliário, e em outros setores, não tem um problema de falta de tempo. Tem um problema sério de escolha de prioridades.
Num setor em constante transformação como o imobiliário, a liderança eficaz não depende apenas de experiência ou talento comercial e da gestão de pessoas. Depende, sobretudo, de visão estratégica, disciplina e foco absoluto no que realmente importa.
O filme The Founder (2016), que retrata a ascensão da McDonald’s sob a liderança de Ray Kroc, é um exemplo poderoso dessa realidade. Mais do que a história de um franchising de sucesso, o filme oferece uma lição profunda sobre posicionamento, método e escolhas estratégicas com aplicações diretas para diretores, gestores e líderes de equipas imobiliárias e para consultores que olham para o seu negócio num formato empresarial.
Ray Kroc não inventou o hambúrguer. Não era o mais criativo nem o mais carismático. Era um vendedor persistente que reconheceu o potencial de um modelo simples, eficiente e replicável. Ao cruzar-se com o conceito criado pelos irmãos McDonald, percebeu que o verdadeiro valor não estava no produto, mas sim, no sistema. Apostou tudo na expansão, e não o fez de forma impulsiva ou caótica. O crescimento da McDonald’s foi construído com base em decisões duras, foco extremo e uma capacidade rara de priorizar o essencial: processo, repetição, marca e crescimento sustentado.
Esta lógica aplica-se de forma direta ao mercado imobiliário. Muitos líderes vivem presos a um ciclo constante de reação. Resolvem problemas operacionais e de negócio, respondem a todas as urgências, apagam fogos diariamente. Nesse ritmo, perdem a capacidade de pensar o negócio de forma estruturada e estratégica.
A pergunta que se impõe é: quem está ao comando? Quem está a pensar o seu negócio de forma estratégica? Ray Kroc fez exatamente o contrário. Definiu o que era crítico para o modelo funcionar e eliminou tudo o que não servia esse objetivo. A gestão do tempo e da energia passou a estar ao serviço de um sistema escalável, e não de tarefas dispersas.
Já Greg McKeown, no seu livro, reforça esta ideia ao afirmar que, se não priorizarmos conscientemente a nossa vida e o nosso trabalho, alguém o fará por nós. No imobiliário, isso traduz-se em agendas dominadas por clientes e consultores, visitas sem critério, angariações desalinhadas com o posicionamento da marca, equipas sem direção clara e líderes permanentemente cansados. O essentialismo não é fazer menos por comodismo. É fazer menos com intenção estratégica.
Peter Drucker, no clássico The Effective Executive, foi ainda mais direto ao afirmar que não há nada tão inútil quanto fazer eficientemente algo que nunca deveria ser feito.
Quantos líderes imobiliários são extremamente competentes a resolver microproblemas, gerir exceções e lidar com urgências constantes, e negligenciam aquilo que realmente cria valor a médio e longo prazo: cultura, processos, posicionamento, métricas e desenvolvimento de líderanças intermédias.
Stephen Covey, em The 7 Habits of Highly Effective People, acrescenta outra camada essencial a esta reflexão ao lembrar que aquilo que é importante raramente é urgente, e aquilo que é urgente raramente é importante.
No imobiliário, o urgente grita através do cliente ansioso, da escritura marcada para amanhã ou do consultor em crise. O importante, por outro lado, manifesta-se de forma silenciosa na estratégia, no modelo de negócio, na clareza de papéis, na formação contínua e na liderança consistente. Ray Kroc teve a lucidez de ouvir esse silêncio.
O filme mostra também que uma boa ideia só ganha força quando existe um sistema que a sustente. O setor imobiliário está cheio de talento e visão, e continua pobre em estrutura.
Kroc criou manuais, padronizou operações, formou líderes locais e construiu uma cultura forte. Transformou uma loja num ecossistema de performance. No imobiliário, agências que dependem apenas de pessoas “fortes” tornam-se frágeis. As que investem em processos claros e replicáveis tornam-se resilientes.
Quero ainda recordar que James Clear, no livro Atomic Habits, resume esta lógica de forma brilhante ao afirmar que não subimos ao nível dos nossos objetivos, e sim, caímos ao nível dos nossos sistemas.
Objetivos ambiciosos sem estrutura são apenas desejos bem formulados. Sistemas consistentes transformam intenção em resultado.
No final, tudo se resume a uma verdade simples e exigente: liderar é escolher.
Escolher onde investir tempo, onde dizer não, onde criar estrutura e onde formar outros para não depender permanentemente de si. No imobiliário, o verdadeiro líder não é o que resolve tudo. É o que constrói algo que funciona mesmo quando não está presente.
Vivemos numa era onde estar ocupado é confundido com ser eficaz. No entanto, o setor imobiliário precisa de outro tipo de liderança. Precisa de líderes com coragem para priorizar, com disciplina para eliminar o ruído e com visão para construir sistemas sustentáveis.
Ray Kroc não era o mais talentoso. Era o mais focado. E hoje, no imobiliário, foco em processos, pessoas, posicionamento e métricas certas é o que separa crescimento sustentável de sobrevivência cansada.
Menos ruído. Mais intenção. Mais liderança. Mais imobiliário com serviço e excelência.




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